Schi-schi-liá, nasceu a partir de uma visão do casal Danielle Huillet e Jean-Marie Straub: a imagem do desperdício e devastação de toneladas de laranjas na profundeza do rio. A primeira imagem é de um homem de costas para nós. O recorte negro num fundo de cenário que imaginamos azul. O azul-mediterrânico. O homem é um estrangeiro e o tema da conversa surge à volta do sabor das laranjas com o vendedor. O comboio faz desfilar inúmeros lugares, viagens de onde a história parte; Donna Fugata, Castelvetrano, Messina. Os bancos de comboio são a toca de recolhimento e um face-a-face onde as conversas emergem inevitáveis perante o rosto do outro desconhecido. Schi-schi-liá é um modo de soletrar e pronunciar as palavras, uma recitação de um panorama em palco. A paisagem é desidratada, pontilhada de giestas e sente-se o ar seco soprado pelas cigarras. As casas brancas desenham sombras, os últimos redutos de frescura. O estrangeiro procura a mãe. Mãe e filho reencontram-se, digladiam-se frente a uma natureza semimorta. O ricochete de lembranças agrestes, desafectos. A fome assolava os últimos dias do mês. Arenques no Inverno, pimentos no Verão. Só isto. E pão de figos secos. O filme desenrola-se num ambiente de aldeia, num desfile de rotinas puras. Os tempos passados da infância do estrangeiro (Silvestre) eram duros. Ver este filme e ler Elena Ferrante, na sua saga ”A Amiga Genial”, é viajar pelo Sul de Itália e enlaçar impressões fortes. Silvestre retorna ao seu passado e conduz-se em duelos verbais com o amolador de facas. O amolador surge como filósofo de rua numa desgarrada num campo de batalha benigno.

Sem comentários:
Enviar um comentário