sexta-feira, 9 de novembro de 2018


Se eu bombear o meu sangue
Contra o nascer do sol
Deixarei o meu peito aberto
Mastigadas chamas de fuligem e vidro
(Gosto de vidros partidos)
Alertando-me para o que vem depois
Das coisas que nos transparecem
O meu sangue morreu
Enrolado em folhas de Inverno
E peles de animais metamórficos ou eternos
O coração, porém
Bombeia
Uma estranha viscosidade
Semelhante a uma árvore
Cortada e um dedo amputado
Não há em lugar algum
Redenção, esperança ou desejo
De ter em simultâneo
Dois nascer de sóis
No plural, solitários
Invisíveis um para o outro
Às vezes, antes de adormecer
Concentro-me na corredura do meu
Sangue
E não o oiço
Mas lá fora, sei bem
Que aves tecem o fim

domingo, 19 de agosto de 2018


fiz a descoberta das pedras
sou feito de lume e orvalho
ninguém me vê
a luz e o borralho troçam de mim
a Natureza fala a língua das pedras
na ausência da compreensão do movimento
da carne muda dos animais





Sepulturas em Sortelha, 2018

terça-feira, 31 de julho de 2018


No café
Faço
Às palavras
Que não disse

Quase a conseguir
Parar o tempo
Entre o sono
E a vigília




- Desculpe. É aqui o certame?
- Não, não. Isso foi a semana passada, amigo.
- Mas, disseram-me que era hoje…
- Hoje é o concurso.
- Concurso?
- Sim. E para a semana haverá o debate.
- E o certame?
- Já foi. Antes do Sarau, há três dias.
- E quando é que haverá outro certame?
- Depois do evento.
- Que evento?
- Aquele que procederá ao acontecimento.
- Acontecimento?
- Sim, entre a apresentação e a ocorrência.
- Ah, estou a ver.
- Não. Não está a ver por que hoje não há nada. Amanhã talvez possa se dar um encontro.
- Encontro com quem?
- Com as associações que organizam comícios.
- Então é melhor voltar noutro dia.
- Especifique, por favor. Para breve teremos uma agregação.
- Quando?
- Depois da exposição. E antes da inauguração.
- É muito preenchido.
- Se tivesse preenchido o formulário teria acesso directo ao Meeting, ao TED e à conferência.
- Não sabia.
- Pois, as pessoas não sabem e depois arrependem-se. Teria direito a uma festa com cortejo e desfile.
- Terei de ter mais atenção. Obrigado.
- De nada. Se for pelo corredor esquerdo pode ser que ainda apanhe a Mostra.
- A mostra?
- Sobre feiras e galerias.
- É um mundo de coisas!
- À saída assine a nossa revista e tenha acesso a todas as informações. Como oferta poderá assistir à cimeira.
- Cimeira?
- Sim. À cimeira de assembleias, ajuntamentos e organismos. Antes haverá uma abertura. Tenha um bom dia.

terça-feira, 10 de julho de 2018


Cheiro a sombra e a luz lenta
Quando caíste na alcatifa podre
Junto à escadaria e contra o mar
Sabia

- Na ausência dos botões das roseiras -
Que morrerias em silêncio num
Dilúvio de guerras forradas a veludo e antúrios
Observei-te curvado

Entre o relâmpago e a areia no balde para a latrina do gato
Como se curvam as árvores demasiado
Próximas do mar
Orgulhosas, cobrindo a
Nudez dos ramos
Com folhas e mentiras

Cheiro a sombra
Por que não te tinha cor



Leon Levinstein 

terça-feira, 19 de junho de 2018


O enigma do pai

Queimo toda a terra
Esterilizo as sementes
Chuva da minha saliva aspersa
Ao pó fácil das nascentes

Só o murmúrio da laje
Enfeitada com cera e memória
As canções na surdina da glória
Procurando pousio, jaze

A mentira da tua voz
O ultimato da tua carne
A velocidade do arrependimento

A sementeira areando a foz
E tudo mais do mar emane
A morte nunca foi conhecimento

© Paulo M. Rema



segunda-feira, 18 de junho de 2018

Schi-schi-liá, nasceu a partir de uma visão do casal Danielle Huillet e Jean-Marie Straub: a imagem do desperdício e devastação de toneladas de laranjas na profundeza do rio. A primeira imagem é de um homem de costas para nós. O recorte negro num fundo de cenário que imaginamos azul. O azul-mediterrânico. O homem é um estrangeiro e o tema da conversa surge à volta do sabor das laranjas com o vendedor. O comboio faz desfilar inúmeros lugares, viagens de onde a história parte; Donna Fugata, Castelvetrano, Messina. Os bancos de comboio são a toca de recolhimento e um face-a-face onde as conversas emergem inevitáveis perante o rosto do outro desconhecido. Schi-schi-liá é um modo de soletrar e pronunciar as palavras, uma recitação de um panorama em palco. A paisagem é desidratada, pontilhada de giestas e sente-se o ar seco soprado pelas cigarras. As casas brancas desenham sombras, os últimos redutos de frescura. O estrangeiro procura a mãe. Mãe e filho reencontram-se, digladiam-se frente a uma natureza semimorta. O ricochete de lembranças agrestes, desafectos. A fome assolava os últimos dias do mês. Arenques no Inverno, pimentos no Verão. Só isto. E pão de figos secos. O filme desenrola-se num ambiente de aldeia, num desfile de rotinas puras. Os tempos passados da infância do estrangeiro (Silvestre) eram duros. Ver este filme e ler Elena Ferrante, na sua saga ”A Amiga Genial”, é viajar pelo Sul de Itália e enlaçar impressões fortes. Silvestre retorna ao seu passado e conduz-se em duelos verbais com o amolador de facas. O amolador surge como filósofo de rua numa desgarrada num campo de batalha benigno.

Sandra Pereira



Hipnomorfeu

Se virasse o céu
Ao contrário
Afundar-me-ia
Nas nuvens incertas
Afunilar-se-ia
No trajecto da incerteza

Trajaria água e neve
Meus olhos moribundos
Saraivariam
Escamas de árvores queimadas ao último reflexo
Do sol



© Paulo M. Rema



Ilse Bing

A dor é minha
A colheita é o engano
Da fome
No alfabeto do vento
Quente em dias
Lastimosos de Verão

A fome…
É devorar os amigos
Desejados mortos
Em álbuns de fotografias

Tudo o mais,
É menos
Afinal,
Nunca haverá coisas infinitas



© Paulo M. Rema




Felix Gonzalez-Torres, “Untitled”

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Tecendo horas de seda e oiro (assim o dizia um poeta japonês), é assim "O Gosto do Saké" de Yasujiro OZu.

Tecido em vagares simples, rotinas que se perpetuam em mãos femininas. Os dias espumando, o tempo passando, deixando rasto. Situa-se nos sixties e numa atmosfera memoralista da Segunda Grande Guerra. Uma jukebox, que não vemos, vai repetindo uma marcha militar - num bar cozy - que me relembra os filmes americanos, e os lamentos feridos que ficam do final das guerras. "Os melhores anos das nossas vidas" já passaram. Icones da cultura americana, o hamburger, o beisebol, a cerveja, misturam-se e fazem parte do lar. No entanto, os shôji, deixam passar a luz, sabemos que não o olhar, e um objecto de arte, um bronze ou arranjo floral, criam aquela harmonia oriental, que nos suspende a respiração aquietando-a. A servidão feminina é uma falsa aparência, antes uma missão. Missionárias do bem-servir, controlam a economia do lar, a fraqueza dos seus homens. Ora votadas ao casamento, ora a cuidar da figura paterna, quando esta enviuva. Os homens bebem e fraquejam muito. Por vezes elas choram, mas é raro. São subtis nas emoções.

Sandra Pereira com inspirações em Elogio da Sombra, Junichiro Tanizaki